quinta-feira, 23 de setembro de 2010

passeio

nunca me viste fora da carapaça, não sabes ler a textura dos meus ossos - as coisas arrumadas na prateleira da sala, arquivo futuro de uma guerra invisível, ter outra vez dezasseis anos e ser o idiota do liceu - e na textura dos meus ossos poderias encontrar a solução para todos os problemas do mundo, ou, pelo menos, para os problemas que o mundo te traz - a chave de casa perdida na rua principal, um telefonema de um número desconhecido, as coisas pequeninas em que decidimos acreditar - e tu não queres perceber que o mundo se resolve atravessando a estrada, por muito trânsito ou fogo que ela tenha, atravessa-se a estrada, queima-se a ponta dos cabelos e ficamos do outro lado, prontos a encontrar o que de novo vier - um qualquer amor de ocasião, uma folha em branco, o medo todo do zero naquele passeio.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

tocar

o espelho partido e não te vês, nem sentem os dedos decepados pelo vidro, agora, vais tocar o quê? o espelho partido e a imagem perdida, querer e querer procurar a imagem do teu choro. os dedos decepados e as sensações na distância, nem a pele nem as lágrimas têm a textura desejada. agora, agora, vais tocar o quê?

terça-feira, 21 de setembro de 2010

morte

era capaz de dizer a limpeza, mas bateram à porta e eu abri e era a morte. a morte anunciada, a morte. conhecemos as pessoas jovens e plenas de energia, até que um dia uma tosse, uma rouquidão, depois um lenço, depois um andar mais lento, depois uma conversa, uma notícia, uma ausência prolongada, depois, bem, depois batem à porta e era a morte. logo hoje que eu seria capaz de dizer a limpeza, logo hoje, a morte. a morte chegou e tratou da burocracia. alinhou as datas da agenda, manteve-se fria perante o anunciado, planeou, como se nada fosse. a morte, quando repetida, é mais leve, talvez, digo eu, penso eu, não estou seguro. pois bem, era a morte, a morte a tratar dos seus assuntos. e na minha cara, entre a tristeza, o medo de não saber o que dizer. o que dirias tu se a morte te batesse à morte? a minha cara triste e assustada, a repetir murmúrios. e no último aperto de mão, a morte sorriu. sim, a morte sorriu.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

palavras

encontras as palavras no deserto? encontras as palavras no deserto. centenas de quilómetros de calor e erva seca, algumas árvores que se vão esquecendo do tempo. as estradas feitas linha sobre os montes, as pessoas paradas, as portas de todas as casas fechadas. encontras as palavras no deserto? não se chega a estar sozinho no meio de tão brutal cenário, embora as vozes se apaguem lentamente com o sol a pino. ainda assim, com os dedos vais misturando a terra húmida com a seca, como se escavasses, como se fosse realmente possível encontrar as palavras no deserto.

sábado, 18 de setembro de 2010

doença

não é a semana que ficou suja, não. a palavra é que ficou doente. amadurecem, assim, os dias do descanso desejado. pretendes inventar uma biografia onde o mundo esteja sujeito a um interruptor. mas, tu sabes, não funciona. vais continuar a regressar, sempre, ao lugar onde foste infeliz. vais tentar não perceber o que encontras, acreditando que te querem continuar a magoar. vais repetir e repetir, choros e queixas, afundando-te sem saída. não é a semana que ficou suja, a palavra é que ficou doente. amadurecem, assim, os dias do descanso desejado.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

memória

uma manhã nisto, o chão sujo, as paredes envelhecidas e as palavras em repetição até ao infinito. uma manhã nisto, água a ferver até que a panela seja labareda, algum sangue no sofá, o prepúcio rasgado, uma face de pânico enquanto as pernas, antes todas claridade doce, se transformam, lentamente, na podridão do sangue seco. uma manhã nisto, a fraqueza do corpo assim surpreendido, a fraqueza da mente que se observa perto da morte, apenas ferida. uma manhã nisto, quase hora do almoço, quase hora de inventar a limpeza. a memória, essa, será para sempre suja.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

temer

lamber as botas da companhia, provar o amargo sabor da lama, na pele marcado o peso bruto dos que espezinham, ignorar a solidão do ossos partidos. não vou voltar a ser violento como quem lamenta, não, nunca mais. lamber as botas da companhia, inusitado gesto de quem rasteja, ou rastejará ainda pelo infinito dos tempos. nasceu o sol ou choveu a tarde inteira, não me perguntes, não saberei nunca responder as temíveis questões de quem teme.