quarta-feira, 15 de setembro de 2010
vista
depende sempre do ponto-de-vista - o homem mais sujo pode ter, na pele, o mapa do tesouro, a palavra mais bonita pode parecer feia se dita em determinadas circunstâncias, o discurso ébrio tanto pode apaixonar como enojar - depende sempre do ponto-de-vista. sentes-te excitada ou insultada, apontada ou escolhida, amada ou ignorada. depende sempre do ponto-de-vista. arrancar os olhos ou o coração. és tu quem escolhe, afinal.
terça-feira, 14 de setembro de 2010
tempo
olha só a quantidade de coisas que podem acontecer ao mesmo tempo - tu e as tuas roupas sobre a cama, o corpo límpido e exageradamente sensual - a quantidade de coisas que podem acontecer ao mesmo tempo, encontrar um caminho para a frança, saber de fonte certa todos os segredos do mundo, poder correr livre pelas areias de todas as praias. olha só. lamber as feridas durante noites inteiras, ouvir o canto dos pássaros perdidos pelo quintal, elaborar sem avidez todas as sedes de todas as bocas do universo. vê. a quantidade de coisas que podem acontecer ao mesmo tempo.
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
rasgão
rodeou a boca com um lenço sujo, apanhado do chão. penteou, com fragilidade, os cabelos, saliva entre os dedos para acalmar as fúrias da cama. tentou alinhar a roupa de encontro ao corpo, não foi capaz. mergulhou todos os sentidos na inconsciência da sua companheira. sim, tinha uma arma de fogo, ilegal licença para caçar. no quintal corriam coelhos, voavam perdizes. rodeou a boca com um lenço sujo, apanhado do chão. procurou a primeira loja da rua, entrou pela porta, disse mãos ao ar. era uma figura magra, conhecida por todos, os olhos mais assustados do que nunca. deram-lhe algumas moedas, as poucas notas da segunda-feira, uma sandes de manteiga. ele correu assustado até aos limites da cidade. arrancou o lenço e comeu, sofregamente, o pão. nunca mais ninguém soube por onde parava.
domingo, 12 de setembro de 2010
banquete
trabalha e trabalha o homem, nunca dorme. nos seus olhos uma faísca que atira sobre a morte.
era uma vez uma estrada, uma cassete, mobiliário de jardim a preços de promoção. o homem perdido entre as peças do supermercado, a consulta dos preços, a escassez de dinheiro. era uma vez uma chamada a meio da noite que ninguém atendeu. os olhares adormecidos enganando os ouvidos, crenças fúteis nas capacidades dos vizinhos. a minha opção nunca foi a construção de paredes entre nós. erigi palavras grandes como troncos de árvores centenárias. mas ao longe
trabalha e trabalha o homem, nunca dorme. nos seus olhos tudo é medo. desilusão.
o lugar para onde se dirige não conhece, ele não sabe. resiste apenas à confusão dos sentidos. baralha-se. está perdido.
era uma vez uma estrada, uma cassete, mobiliário de jardim a preços de promoção. o homem perdido entre as peças do supermercado, a consulta dos preços, a escassez de dinheiro. era uma vez uma chamada a meio da noite que ninguém atendeu. os olhares adormecidos enganando os ouvidos, crenças fúteis nas capacidades dos vizinhos. a minha opção nunca foi a construção de paredes entre nós. erigi palavras grandes como troncos de árvores centenárias. mas ao longe
trabalha e trabalha o homem, nunca dorme. nos seus olhos tudo é medo. desilusão.
o lugar para onde se dirige não conhece, ele não sabe. resiste apenas à confusão dos sentidos. baralha-se. está perdido.
sábado, 11 de setembro de 2010
glicínios
faz o meu texto durar - faz, faz, faz.
eu arranho lentamente a cabeça com que adormeço na almofada limpa. eu arranco os pêlos do nariz e sorrio na televisão que é o teu olhar intrometido. eu chamo quem não ouve. os gritos limpos, os passos abertos no corredor do prédio. envio-te mensagens que não dizem nada - não fala nunca o tamanho da palavra.
faz, faz o meu texto durar.
os olhos arrancados do urso de peluche, a penúria ignóbil deste almoço que ainda não mastiguei. os carros que aceleram sobre as passadeiras de peões. as palavras duras dentro de água quente. a faca de cozinha, o supermercado, a dor quotidiana. cortei-me a fazer a barba, cortei, e desconheço ainda todas as implicações deixadas pelo testamento dos mortos familiares.
por isso te peço, que dure, que dure - faz.
não sei ainda quantas vozes se poderão dedicar à límpida rispidez de polir as maçãs do rosto. nem será nunca enquadrada em mim a leve tentação de te retirar do embrulho em que te ofereceste. eu arranho lentamente a cabeça com que adormeço na almofada limpa, eu sou a máquina de lavar, o amaciador, o pára-choques. restos de mim descansam na auto-estrada, esta não é uma carta de despedida.
faz o meu texto durar.
eu arranho lentamente a cabeça com que adormeço na almofada limpa. eu arranco os pêlos do nariz e sorrio na televisão que é o teu olhar intrometido. eu chamo quem não ouve. os gritos limpos, os passos abertos no corredor do prédio. envio-te mensagens que não dizem nada - não fala nunca o tamanho da palavra.
faz, faz o meu texto durar.
os olhos arrancados do urso de peluche, a penúria ignóbil deste almoço que ainda não mastiguei. os carros que aceleram sobre as passadeiras de peões. as palavras duras dentro de água quente. a faca de cozinha, o supermercado, a dor quotidiana. cortei-me a fazer a barba, cortei, e desconheço ainda todas as implicações deixadas pelo testamento dos mortos familiares.
por isso te peço, que dure, que dure - faz.
não sei ainda quantas vozes se poderão dedicar à límpida rispidez de polir as maçãs do rosto. nem será nunca enquadrada em mim a leve tentação de te retirar do embrulho em que te ofereceste. eu arranho lentamente a cabeça com que adormeço na almofada limpa, eu sou a máquina de lavar, o amaciador, o pára-choques. restos de mim descansam na auto-estrada, esta não é uma carta de despedida.
faz o meu texto durar.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
garrafa
olhou várias vezes a garrafa em cima da mesa. a garrafa em cima da mesa. perguntava-se a si próprio porque precisava, tantas vezes, de recorrer ao gesto de abraçar e provar o forte líquido que ali estava guardado. olhou várias vezes a garrafa. não precisava dela para falar, para respirar ou viver. não precisava dela como companhia, como ideal. não precisava dela para nada mais do que matar-se um pouco mais, a cada noite que passava. olhou várias vezes a garrafa. entornou o líquido no copo, encantou-se pelo brilho das luzes da sala, como se dançassem. bebeu, uma e outra vez, bebeu para que no fim tudo restasse vazio. a garrafa, sim, mas também ele. ele próprio. e o seu corpo.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
canção
aprende a dançar a nossa canção, aprende a dançar, um pé outro pé, aprende a dançar a nossa canção. aprende a dançar a nossa canção, é desnecessária a formatação, um olhar outro olhar, aprende a dançar a nossa canção. aprende a dançar a nossa canção, uma e outra volta, depois o refrão, aprende a dançar a nossa canção. aprende, aprende, não digas que não.
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