quarta-feira, 8 de setembro de 2010

estupidez

oh, ser jovem e estúpido, acreditar infinitamente nos poderes da magia silenciosa, deixar-te enrolar os pulsos em gaze fina, fugir da realidade dentro de garrafas de vinho barato. oh, ser jovem e estúpido, não acreditar nunca na cor dos teus olhos, não fazer ideia das chaves que se guardam dentro dos casacos de inverno, não poder, não poder ser nunca de um lugar onde se deve ter a primeira palavra. oh, infinitos oh's de desespero, ser jovem e estúpido, tão tão estúpido, tão mais estúpido quanto à distância se entende, finalmente, o gigantesco tamanho da nossa estupidez.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

pássaro

penso em sangue e digo, a alta voz, "sangue não". as pessoas à minha volta, no restaurante, olham-me de lado. fingem regressar aos seus bifes, aos pratos de bacalhau à brás, e eu suo, de olhos muito abertos. penso em sangue e oiço as conversas dos outros. falam das contas, das vidas dos filhos, dos quilos ganhos no verão. o restaurante está quase vazio e as pessoas parecem recear-me. penso em sangue, pago a conta, saio para a rua. a escola ainda vazia de crianças. acendo um cigarro, olho a brisa no topo das árvores. um pássaro doente parece querer tombar, entregar-se à morte mais que certa. paro um segundo, trago o fumo, penso em sangue. "sangue", digo em voz alta. mas o vírus não escorre. mata por dentro. ameaça. o pássaro, o pássaro que ficou para trás.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

sol

não vás esconder o sol dentro do mar bravio. lá fora as pessoas gritam a noite inteira, não deixando que o mar nos chegue aos ouvidos. inventamos passos no meio da vila, inauguramos os olhares de quem ainda há pouco acordou. não vás esconder o sol dentro do mar bravio, não vás esconder a vida, as sensações. lá fora pessoas gritam, mas entre as nuvens ainda é o calor que nos aconchega na sala. não vás esconder o sol. deixa que os olhos brilhem.

sábado, 4 de setembro de 2010

viagem

talvez a viagem, acontece que a chuva, ainda assim o cinema. remo sobre o asfalto a minha casa, desprotejo-me ao quilómetro, engulo um choro que não inventei. não peças, nunca mais me peças, seja o que for. talvez a viagem, a construção, a historiografia. ser capaz de registar todos os movimentos num só segundo. querer encontrar o que não tem poiso, o que não nasce. saber sempre das coisas erradas da vida, para tudo faltar as palavras, menos para o que não merece já ser dito. talvez, por fim, a viagem, mesmo que a chuva, o cinema, sempre. o asfalto feito rio ou mar, oceano. toda a leveza dos impulsos. o cheiro molhado. a salvação que não encontro.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

treme

sendo o corpo a entidade que treme, tudo o resto é multidão. não há olhares que meçam a possibilidade do choque, estamos tão bem escondidos, tão difíceis de identificar, tal como estamos expostos a todas as surpresas. caminhamos assim entre duas verdades, não encontrando qualquer conforto na proximidade assim conquistada. ainda assim, o corpo, sim, o corpo, é a entidade que treme. pequenos tremores de terra passam despercebidos em todo o mundo, a cada minuto que passa. o que não dizer dos tremores dos corpos. à volta, a multidão. a multidão comendo refeições rápidas, olhando os relógios, conversando dos empregos, dos problemas de sempre. a multidão com fato e vestido, uniformizados para as sessões laborais do reino. passamos despercebidos, tu e eu? passaram, quem sabe, ignorados, os nossos olhares. o corpo, esse, treme. o corpo treme. as palavras não explicam. as memórias não resolvem. o aparelho não regista. o corpo treme.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

precipício

diz-me a tua idade, dir-te-ei do teu precipício. em todos os  mundos, um lugar onde perder a pele. em cada habitação da alma, uma faca pronta a perfurar o peito. não, não busco sangue. diz-me só a tua idade. eu dir-te-ei dos pássaros que morreram na viagem. um carro a acelerar na estrada nacional, uma cabeça espreitando da janela. em cada recorte de jornal, um esquecimento que anula sorrisos. diz-me a tua idade. diz. ou então recomeço a contagem dos dias ao contrário, os lençóis da cama desfeitos pela ausência de corpos. ou então elimino todos os documentos da nossa existência, restabeleço a ordem anterior, improvável citação do desaparecimento. ou então, ainda, o teu precipício feito em mim. a um passo de lá, um passo dado.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

dança

se queres dançar, porque não queres dançar? o computador lento a correr o anti-vírus, o calor pesado como as coisas que te caem sobre a cabeça, a cabeça por dentro, melhor nem falar. se queres dançar, escolhes a música, deixas-te ir. se não queres dançar, o mundo quase que pára. o computador lento a correr páginas e páginas, o calor pesado das coisas, bem, falo? o mergulho é um mergulho, havia água e areia por todo o lado, as palavras debaixo do chapéu de sol. não foram férias, foi um passeio pelo inferno imaginado. se queres dançar, se quero dançar, porque não queres dançar, porque não quero dançar? entre tudo isso e isto, onde agora estou, pouca é a fronteira.e não, eu não falo. deixo tudo por dizer, assim espalhado, em cima da secretária. faz o favor de ler os meus sinais. faz-me esse favor.