sexta-feira, 1 de outubro de 2010
rua da imaginação
de onde eu escrevo, apenas imagino, chove outra vez no quintal dos corpos abandonados, o carteiro chega atrasado a cada manhã, o café fechou, de onde eu escrevo, apenas imagino, de nenhuma pessoa sei um nome que valha, um contacto que resulte, uma face que reconheça, por isso tudo posso dizer e repetir, nenhumas consequências para lá da esquina da realidade, não que isso me sossegue, ao contrário, estou isolado, cada vez mais isolado, e vai ficando solitário viver na rua da imaginação.
quinta-feira, 30 de setembro de 2010
acerta
olha mais longe, ainda mais longe - por cima das cabeças e dos corpos bem potentes, por cima dos equipamentos, bem lá para o fundo - procura encontrar quem corre na direcção do teu objectivo, quem possa entregar no destino a bola que tu prometes - por cima dos ferozes adversários, por cima de todas as tácticas, todas as muralhas - procura e encontra e acerta, acerta sempre, se não queres perder.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
ideia
não faço a menor ideia das linhas das marés, nem dos corpos deitados na praia nestas tardes de outono - era ainda um passo curto, torto, o homem correndo na hora do almoço - e não quero que me chames em todos os momentos em que quero que me chames - para quê insistir no intratável insucesso das nossas metades desalinhadas -, mas ainda me lembro bem de como os olhares se cruzam mesmo nas noites mais escuras, como me lembro do poder das palavras quando soltas sem sentido. de resto, de nada mais faço a menor ideia.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
espelho
despeja o saco sobre a cama, a cama sobre o quarto, o quarto sobre o chão - enterrado na areia. despeja a boca sobre a mesa, a mesa sobre as pernas, as pernas sobre o infinito - desaparece. despeja a cabeça sobre ombros, os ombros sobre o tronco, o tronco sobre o terreno - preso na lama. despeja as sensações, as emoções, as razões, a falta delas - faz-te, finalmente, invisível.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
vazio
de tanto soletrar a mesma palavra, fatigou-se o coração de alimentar o pensamento - porque as palavras dispõem de uma universalidade que não espera, não nascem individuais nem solteiras, casam-se com as palavras dos outros, num contínuo. fatigou-se o coração de alimentar o pensamento, caiu da cadeira a pose e a amizade - pois se bem fazemos uso do que nos apraz, melhor deveria ser a nossa forma de acariciar o invisível, não vá a nossa linearidade provocar a queda do céu nas nossas cabeças. caiu da cadeira a pose e a amizade, de tanto soletrar a mesma palavra - fica na memória e nos bolsos a pedra que escolho não atirar, que escolho ou que me impeço, vá lá eu saber, que tudo agora é depois da nossa morte.
sábado, 25 de setembro de 2010
sábado
seja o sábado sagrado e corrompam as vestes todos aqueles que se atrevam a passar para lá do rio que corre às portas da cidade. seja o sábado sagrado, a voz pesada do pároco repete, pela matinada. aquele a quem se chama o povo passa, de cabeça baixa, esperando que a chuva o baptize neste inferno. acaso haverá alguém sabedor das periferias do desejo? acaso somos nós os responsáveis das tristes sinas em que mergulhamos? seja o sábado sagrado e facilmente identificável quem se amarre no pecado - que traga nos pés a lama, na cara a vermelhidão, na boca o amargo. seja o sábado sagrado, a voz pesada ecoando nas cabeças. pela matinada, aquele a quem se chama povo passa, engole em seco, depois de bem esfregados os sapatos nas ervas daninhas do adro. não vá o acaso encontrar, no simples desleixo, frutuoso caminho para a mesquinhez dos outros.
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
acordar
agora não vou acordar outra vez como se nada tivesse acontecido, o meu programa matinal foi adiado e substituído por música de elevador - talvez se possa, então, começar a fazer as coisas como elas devem ser feitas: carregar os instrumentos de tortura para cima das mesas, chamar os inocentes para a degola, enganar, uma vez mais, as deficientes patrulhas policiais. quando se altera o acordar é todo um outro sono que se inicia, com ele virão diferentes formas de descansar o corpo nos colchões, de respirar a lentidão da noite escura - talvez seja necessário, assim, começar a fazer as coisas como elas desejariam ser feitas: rasgar os músculos com a força de braços devida, arrancar, um a um, os mais longos cabelos, subestimar, uma vez que seja, a límpida estupidez dos animais.
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