quinta-feira, 6 de maio de 2010

tempo

uma cidade reconhece-se pelos passos que se perdem nela. os olhos curiosos alimentam-se de paredes desconhecidas. temos algum gozo em nos perdermos nas informações mal colocadas pelas ruas. uma cidade reconhece-se assim. com tempo.

tamanhos

deixa vir o tempo em que tudo será pequeno, excepto a beleza e a vivência dela. tudo. excepto isso.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

nas caldas da rainha

o luiz pacheco dizia que criancinhas servem de alimento aos pacientes das termas das caldas. quase toda a gente diz que nas caldas toda a gente passa o dia agarrado a pilas de cerâmica. uma vez fui às caldas insultar uns miúdos. era das caldas uma rapariga lindíssima que se dizia prima de uns vizinhos meus, coisa que eu nunca pude vir a confirmar por só a ter visto uma vez. nas caldas filmaram um grande filme, chamado o ninja das caldas. nas caldas há uma estátua de uma rainha. nas caldas há um mercado. nas caldas existem cafés antigos. nas caldas nasceu uma miúda que eu conheço. nas caldas viveu alguém que eu conheci. já fui feliz nas caldas, já passei secas nas caldas, já fiquei triste nas caldas. já me vim nas caldas. já fui às caldas ver um filme. já passei muitas vezes pelas caldas. o luiz pacheco dizia que criancinhas servem de alimento aos pacientes das termas das caldas. lembro-me de quando li isso e daquilo que pensei. li isso aqui nesta mesma sala onde estou. e quando li, senti que ele tinha razão. sim, só podia ser isso. criancinhas a serem entregues nas termas e a desaparecer misteriosamente. já fui ver a bola nas caldas, já fui ao teatro nas caldas, já fui a um concerto nas caldas. já fui a uma clínica nas caldas, ver o meu avô que lá foi operado. conheço muita gente das caldas. muita gente que viveu nas caldas. agora penso o que é que me terá levado a achar que o luiz pacheco tinha razão. criancinhas comidas nas caldas? mas isso é uma coisa impensável e violenta, uma frase sem jeito nenhum. às vezes a nossa cabeça acredita nas coisas mais improváveis. acho que isso também já me aconteceu nas caldas. agora não me lembro bem.

linha do oeste

na linha do oeste, andei uma vez a pé, à espera que o comboio não chegasse. à beira da linha me sentei, a olhar um campo de terra, onde rapazes corriam atrás de bolas. na linha do oeste namorei uma rapariga até à figueira da foz. a olhar a linha considerei os campos de óbidos os mais belos. foi na linha do oeste que me fizeram parar na estação das caldas da rainha, onde eu saí para tomar café e comer um bolo. foi a olhar a linha que eu chorei algumas lágrimas, poucas, num dia de despedida. se estivesse distraído, era capaz que a linha do oeste nunca me tinha dado. mas deu-me muitas coisas, entre elas, esta história.

estação

na estação com a cabeça cheia de poemas. sempre achei as estações lugares altamente inspiradores. quando era mais novo, sentava-me no apeadeiro à espera que dos comboios descessem raparigas bonitas, nunca antes vistas aqui pela vila. elas nunca apareciam. mas na estação a impossibilidade perdia todo o sentido, a surpresa era um facto consumado e certo, mais dia menos dia. na estação com a cabeça cheia de poemas, capaz de rebentar com as costuras do chapéu antigo que agora reparo ter na cabeça. um dia como os outros. tudo é possível.

terça-feira, 4 de maio de 2010

cadafalso

então tu subiste ao monte e tudo o que encontraste foi o cadafalso. nada te convenceu a admirar a paisagem, a ouvir os pássaros, a inspirar o ar limpo. tu subiste ao monte e toda a tua atenção dirigida ao cadafalso. sabendo que irias morrer, só a morte te interessou. não percebeste o quão rarefeito é o tempo que nos dão para apreciar a beleza. não percebeste.

maneira de desenhar um círculo

podia dizer-te, coloca-te no centro, faz uma roda perfeita, mas não. isso não resolverá o problema. coloca-te ao alto, tenta alinhavar com os dedos aquilo que a tua cabeça tão bem imagina. saiu-te torto? sai sempre torto.