terça-feira, 4 de maio de 2010

manhã

manhã sincera, o frio ajuda a fixar os planos do olhar à porta de casa. manhã de novo, o cabelo despenteado, a estrada vazia. manhã manhã, sempre à procura de maneiras de dizer, sempre à espera que se resolva o problema de exprimir, exactamente, todas as linhas curvas de uma recta.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

esperança

era de prever. era de prever o sangue, a incompreensão. eram, também, de prever todas as palavras fora dos lugares. algumas marcas na pele. as pálpebras inchadas. tudo, tudo era de prever. menos a capacidade de adivinharmos o pior, quando ainda temos esperança.

dedo

o dedo do escritor já é uma lâmina. quando acaricia, recorta. quando esquece, pretende. quando revê, renasce. o dedo do escritor já é uma dor. uma mágoa. uma ferida. o dedo do escritor, caído junto à perna da mesa. separado do corpo.

lembro

quanto pegas numa régua e vais medindo cada coisa que tinhas para dizer e não disseste, ficaste calado.

domingo, 2 de maio de 2010

caderneta

vais contar até cinco e dizer todas as cidades espanholas de que te lembras, lá pela vigésima quarta vais começar a pensar em clubes de futebol, depois da trigésima terceira vais dizer, por engano, um nome que não é uma cidade, alguém te vai censurar e tu acordas, percebendo que sim, o espanha 82 já acabou há muito tempo, há demasiado tempo.

matías fernandez

sentado à mesa com cigarros imaginários a passarem-te entre os lábios, nenhuma banda sonora para além da longa conversa que tens contigo mesmo, estás sempre a recomeçar o mundo na tua cabeça, estás sempre a inventar o mundo contigo mesmo, sem perceber as metáforas, sem seres capaz de adiantar a necessidade de tudo isso, mais sete dias, mais sete dias, olhas em frente e não vês descanso, sentado à mesa com cigarros imaginários apagados num cinzeiro que não existe de certeza.

cerromaior

fecha o casaco, desce pela rua, na esquina uns homens fumam, conversam numa língua que não compreendes, fecha o casaco, inventando a vida na cabeça, os teus nervos explodem e ninguém nota, algumas pessoas ouviram barulhos atrás das portas. canta baixinho, só para ti, uma música que te lembras de passar na rádio, há muitos anos, canta baixinho, inventa as palavras, o teu corpo a desfazer-se e ninguém sente, algumas pessoas a chegarem a casa de madrugada.