quinta-feira, 8 de abril de 2010

treme

treme-te na mão a catana ao entrares pelo mato que é a folha em branco. ramagens abordam o teu corpo como bichos, o cheiro azedo e a aspereza do ambiente fere-te os olhos. treme-te na mão a catana, suas em bica, murmuras palavras sem sentido. a folha em branco fere-te, entontece-te com seus venenos. treme-te na mão a catana, mas ainda te resta firme o pulso.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

distraído

o suicida guarda as palavras dentro de si, os vivos preferem pensar que sempre está tudo bem. caminhamos assim, sobre as cabeças dos que vão morrer, preferindo pensar que se alguma coisa de mal se passasse, o suicida nos chamasse. é para isso que temos telefones, que estamos online, não é? caminhamos assim, sobre os dedos dos que vão morrer, preferindo pensar que se alguma coisa de mal se passasse, seria bem evidente aos nossos olhos. vamos distraídos, sempre distraídos, esperando que a vida nos mantenha vivos, apenas isso.

falar ou responder

porque o suicida não começa no mergulho ao rio. começa em casa, na escola, entre os amigos. talvez no caso em que foi parar ao hospital há dois anos atrás. e agora o pai diz: se ele falasse. será que precisava mesmo de falar? ou precisava que lhe perguntassem?

vivos

uma criança morreu. fazer um inquérito com trinta e oito testemunhas é um exagero. é, logo à partida, esperar que a culpa não seja de ninguém. uma criança morreu. suicidou-se, tudo indica. e ninguém pensa no que poderia ter feito para o evitar, antes preferem atirar responsabilidades para as costas dos vizinhos. os vivos preferem sempre encontrar uma forma de continuar a viver. mesmo que pendurados em cima das costas dos mortos.

terça-feira, 6 de abril de 2010

agora

e agora façamos um poema que nasça do barulho das nossas vozes misturadas. um poema que nasça das mãos dadas, de beijos trocados. um poema que nasça dessa tentação de sermos próximos. um poema que nasça dos nossos poemas mal interpretados. um poema sem tempo, sem lugar. um poema material. um poema à distância. um poema só desejo, um poema só inocência. e agora façamos um poema que nasça de todas estas coisas que nos ligam e nos afastam. um poema inteiro, que se ofereça ao mundo.

frases

ela não usava uma picareta, usava as pequenas pontas dos dedos para escavar no meio dos livros. sabia, de ciência segura, que entre as páginas haveria de estar uma frase, pelo menos uma, que pudesse ser plantada no seu próprio poema. escava e escava com os dedos, aos poemas agrada as mãos pequenas e quentes das meninas, não o ferro frio das picaretas. ela sabia tudo, tudo isso. e escava, retirando dali uma série de frases que eram deixadas, alinhadas, em cima da mesa, mesmo ao lado do caderno aberto em páginas brancas sem qualquer linha.

tradição

não precisas de segurar nenhum papel para veres recriada a tradição - já está dentro da tua cabeça, mal misturada entre todas as tuas leituras. dos tantos poetas que leste, alguns nomes vão ficando a boiar no cimo do caldo, mas para escrever um poema deitas a concha da sopa ao fundo e tentas apanhar até o que ficou lá em baixo. não precisas de segurar nenhum papel, nenhuma caneta, para veres recriada a tradição - basta que abras a boca e deixes que todas as palavras já utilizadas possam encontrar, nos teus lábios, uma nova forma de serem ditas. e já está.