segunda-feira, 5 de abril de 2010
lista
a arte de manejar dois objectos no mesmo tempo. de fazer acontecer no mesmo texto duas sensações atravessadas na garganta. de controlar todas as coisas que sejam possíveis ter em nossas mãos. a arte do abuso, do excesso. a palavra que inventa palavra e língua inteira. a arte de manejar objectos em situações perigosas. de sair a ganhar das dificuldades. de bater a realidade com sentimentos poéticos. a arte de manejar dois objectos no mesmo tempo.
bicicletas
vi esta tarde passar um homem numa bicicleta com uma bicicleta pela mão. a prova não era de equilíbrio, era de exagero. o exagero que é maior do que a necessidade. um homem numa bicicleta com uma bicicleta pela mão. a tentativa de transportar e ser transportado, ao mesmo tempo. a tentativa de ser tudo, dono e senhor das coisas. ou apenas o querer muito agradar a alguém. um homem e duas bicicletas, talvez um presente, uma surpresa. vi-o passar esta tarde. ia feliz.
domingo, 4 de abril de 2010
"pela última vez sobre a superfície lunar da terra"*
antónio guerreiro lê um toldo vermelho e premeia-o com cinco estrelas expressas - o que seria de nós, os que se interessam por poesia, se não comprar o expresso fosse uma opção. cinco estrelas e uma frase final que merece ser repetida: "a poesia anterior de joaquim manuel magalhães continua disponível e serve-nos de vingança. é a guerra".
peguemos por aqui: guerreiro, talvez imbuído pela analogia ao seu nome, mantém acesa a declaração de guerra que magalhães sempre preconizou para a poesia, uma guerra em que se quer pensar que existe uma poesia certa e uma errada ou,de uma forma ainda mais radical, que a poesia é isto e nunca aquilo. mantém-se acesa essa declaração de guerra como no resumo dos quatro onde, por quatro euros, somos levados a pensar que a poesia portuguesa são 35 nomes, seleccionados de 30 publicações, as quatro mais representadas sendo números de apenas duas revistas. a declaração de guerra de se pensar que toda a poesia é apenas uma casa, uma visão do mundo, por mais sufocante que ela ameace ficar, tão impermeável a leituras externas parece. mantém-se acesa essa declaração de guerra, de pensar que a poesia é um feudo, um território por conquistar, pior, a poesia portuguesa é um recinto, onde direito à exposição, à elaboração de gerações, de princípios e de causas comuns cabe apenas aos iluminados. a guerra de quem está dentro, dentro está, sem convites, sem aparições.
caro guerreiro, a guerra não é essa. a guerra não é contra os poetas, contra os leitores, contra os livros. a guerra é a convivência com a palavra. a guerra é a leitura aberta, sincera e desejosa desse choque que promove a reflexão, a reprodução inventiva. a guerra é a tradição e a impossibilidade segura da sua compreensão total. a guerra é lermos e lermos e sentirmos, ainda assim, que a nossa sensação perante o acontecimento poético vai diferindo, passo a passo. a guerra não é matar o passado - é saber vivê-lo e continuar a produzir sem a ele estarmos presos.
recuso toda a guerra que não seja uma guerra pela vitória da poesia. recuso toda a guerra que não seja pela abertura do campo de visão, do sonho, da literatura. recuso as vossas repetidas declarações de guerra, também. reivindico a soberania da palavra. reivindico a soberania do diálogo. reivindico a soberania da beleza. reivindico a possibilidade da paz para enfrentar o verdadeiro combate. tudo o resto é desgaste inconsequente. nada mais.
* retirado do poema "praia do amanhã", de manuel de freitas, no livro terra sem coroa.
quinta-feira, 1 de abril de 2010
postal com destinatário
para uns, todas as leis. para outros, todas as excepções. não queiram, nunca, que vos levem demasiado a sério. somos todos vítimas das nossas próprias fragilidades.
sentença
continuas a perguntar-te se leste o poema bem, nenhuma sentença é definitiva, continuas a perguntar-te se percebeste, tentas compreender os fundamentos do poema, a sua forma, a tua própria leitura, continuas a perguntar-te, nenhuma sentença é definitiva.
citação
ouvir o m80 dá nisto, perceber ao fim destes anos todos que a música "meu querido mês de agosto" é uma citação da música "una paloma blanca", foi uma distracção involuntária mas imperdoável, e na poesia é mesma assim, lemos e relemos e às tantas, percebemos que o que parecia estar ali, não está, está algures noutro lugar.
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