sexta-feira, 5 de março de 2010
génio
há uma ideia feita de que o génio é um gajo indisposto. que a tristeza, a mágoa, a dor são produtivas. que a perturbação ajuda à criação. a minha arte poética é contrária. preciso de sossego. de tempo. de calma. e aí, sim, no meu campo crescem textos. muitos. com ou sem chuva que os regue. eu preciso de estar bem comigo. apenas isso. o resto, é trabalho.
um ano
passou-se um ano, já. e a este ano eu agradeço a boa cabeça que me fez poder escrever todos os dias. ou escrever ou ler. todos os dias. a cabeça que me faz acreditar que o trabalho tem resultados. a cabeça que me sussurra um tema, uma palavra, uma frase, quando elas parecem não querer sair dos dedos. passou-se um ano, já. o homem que queria ser luís filipe cristóvão ainda é o homem que queria ser luís filipe cristóvão.
quinta-feira, 4 de março de 2010
partida
deixa a mala na praia, o barco parte dentro de segundos. deixa a mala na praia, os pés na areia, o lenço a esvoaçar. o barco parte e depois quem saberá o que nos resta. eu no mar e tu em terra. deixa a mala na praia e molha os pés na onda que se desfaz. talvez o sal, um dia, nos volte a ligar.
filme
descendo a escadaria enorme, os lugares vão ficando mais concretos na nossa cabeça. é assim que funciona a construção do lugar: um olhar ao longe que vai encontrando definições, um corpo que se adapta ao espaço, a cabeça a delimitar as zonas da personagem. descendo a escadaria enorme, virando à direita. e o filme começa.
sol
nem com as persianas baixas se apaga o sol do nosso quarto. já passava da meia-noite e ainda brilhava sobre as nossas cabeças. já passava da meia-noite e ainda o sol nos aquecia os corpos num abraço. nem com as persianas baixas, nem com nada. nem com o protector solar, os óculos escuros. o sol brilha. o sol brilha em nós.
quarta-feira, 3 de março de 2010
conta
eram seis poetas japoneses, uma ilha fechada, uma maré imensa. eram cinco estrelas apagadas, um foguetão inútil, um vento gelado. eram quatro peças húngaras, um compositor falhado, um instrumento sem cordas. eram três pequenos animais amestrados, um domador alcoólico, um chicote esquecido. eram duas mensagens escritas, uma mão quebrada, um dedo levantado. era um sonho reescrito, uma composição infestada, um ligeiro adeus.
cantar
eu não quero cantar outra vez a saída da estrada, a lição de condução. não quero sussurrar a destreza, dinamitar a sobriedade. no entanto, chove sobre o asfalto que se desfaz em cada curva. no entanto, o carro desliza descontrolado sobre o terreno enlameado à beira da estrada. mas eu não quero cantar. não quero cantar.
Subscrever:
Mensagens (Atom)