quarta-feira, 3 de março de 2010

recorte

recorto as palavras mais pequenas para que caibam debaixo das unhas. as unhas crescem e eu passo-as pelo cabelo. as palavras ficam presas nos cabelos, desaparecem com o vento. algum dia, alguém encontrará uma palavra no casaco. sem saber de onde ela veio. uma palavra.

terça-feira, 2 de março de 2010

canto

das muitas lições dadas, quase uma a cada palavra saída da sua boca como um megafone onde crescem nenúfares, copio com um pequeno lápis entre os dedos, as funções enérgicas da alma do poema. o doutor senta-se no café e canta. canta com os braços bem perto da mesa, canta com uma letra que sugere segurança recatada. nós assistimos como quietos, o tamanho dos nossos corpos a reduzir-se perante o palco onde o doutor cresce, e percebemos os nenúfares sobre a água, enquanto fora chove e as pessoas correm, despercebidas. nós assistimos e, nos dedos, um pequeno lápis, sublinha as palavras caídas nos cadernos onde o amor é ainda um território do possível, algures entre a realidade de uma meia de leite e toda a poesia do mundo.

para pedro eiras

muro

das muitas palavras que leio repetidas nos teus versos, ainda me sobra na boca o sabor metálico da pele. receio bem ter entrado no lugar onde o terror se encena a cada momento. receio, embora seja sempre de tempestade o campo da poesia. das muitas palavras que leio repetidas nos teus versos, saboreio também a festa iluminada da vida. a procriação, as mulheres, as mães, os filhos. das muitas palavras que leio repetidas nos teus versos, todo um mar de líquidos espessos, todo uma cruz carregada sem religião. não cometamos como loucos sobre os muros desconhecidos. a atenção é, ainda, um privilégio dos fracos.

para jorge melícias

a cadeira

puxa uma cadeira, ainda agora aqui cheguei e já é tanto o tempo deslocado, as janelas abertas por onde o vento nos invade os cabelos. tudo sai do lugar, tudo recomeça. puxa uma cadeira. na cabeça alguns versos de poemas antigos, alguns dizeres que tentamos compreender na distância, onde tudo é um lugar para ter os dedos, um território conquistado ao desconhecido. foi há muito tempo, foi agora mesmo. puxa uma cadeira. olha lá fora. a casa é ainda o reduto da poesia. ainda. a cadeira.

para joana rios

segunda-feira, 1 de março de 2010

idade

chegaste a uma idade onde dizes as coisas como elas têm que ser ditas. não tens medo do que os outros pensam, não tens medo de te fragilizar. e quando gostas, gostas muito e dizes, dizes nos olhos. os outros assustam-se, os outros retraem-se, os outros também podem estar numa idade em que tudo isso faz sentido. chegaste a uma idade. é um lugar de onde não se pode voltar atrás. felizmente. felizmente.

mão

a mão precisa de ser tocada, acarinhada. precisa de dedos e pele e desejo. a mão precisa de ser tocada, convocada. precisa de amor, amor, sempre. a mão precisa. precisa.

cabeça

a cabeça precisa de ser aberta, descoberta. precisa de chuva e de vento e de sol. a cabeça precisa de ser aberta, alimentada. precisa de palavras e dizeres e olhares. a cabeça precisa. a cabeça precisa.