sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

dia

um transístor em cima da mesa, um dia que ainda nem começou, uma borboleta que bate as asas na china, um homem que olha a terra no quénia, uma palavra que fica presa na garganta seca, um dedo a descobrir pele, uma chávena de chá em cima da mesa de um financeiro de nova iorque, um postal entregue pelo carteiro em sidney, um dia que ainda nem começou, um dia que ainda nem começou.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

sempre

eu sei sempre quando minto. ligado ou desligado tanto faz, a palavra traz o efeito desejado. eu sei sempre quando sinto. para entrar pelos meus olhos basta que pares um segundo. eu sei sempre, eu sei sempre. e a cada dia o ritmo mantém-se certo, inabalável. eu sei sempre quando minto, quanto minto, quando sinto.

contabilidade

nem vou contar quantas vezes disse chuva, aguaceiro, inverno. não vou contar contigo quando sair de casa de manhã. contar com o tempo que me fazia sorrir mal abria a janela. contar com a brisa quente na cara. contar com o mar azul. nem vou contar pelos dedos porque os dedos não haverão de chegar. não vou contar os segredos que tenho. contar com um telefonema ao fim da tarde. contar com uma palavra. contar com o jantar. nem vou contar quantas vezes já contei tudo aquilo que agora já não conto. ou talvez eu desconte, uma vez mais, num caderninho das histórias que temos, tu e eu, meu lugar no mundo. talvez eu o faça. talvez possas contar com isso.

chuva

já voltou, já voltou a chuva. eu ainda nem liguei a música, nem abri os olhos, já voltou a chuva. eu ainda nem saí do sonho, nem saí do sono, já voltou a chuva. nem mudei de casa, nem comprei a máquina, já voltou a chuva. nem lavei a roupa, nem soube da nota, já voltou a chuva. já, já voltou.

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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

peso

um dia dizem-te na rua que um homem morreu. apesar de tudo aquilo que aconteceu depois, foi um homem com quem trabalhaste durante alguns anos. foi um homem que te conheceu quando eras muito pequeno. foi um homem que era amigo do teu pai. apesar de tudo aquilo que aconteceu depois, esse homem morreu e agora já nada pode que desfaça as atitudes que tomou. não pode pedir desculpa, não pode analisar à distancia, não pode recomeçar o que foi interrompido. nunca se volta à inocência, mas pode-se sempre voltar à decência, aprendeste tu. um dia dizem-te na rua que um homem morreu. e no dia e na hora do seu funeral, tu chegas-te junto à igreja, caminhas atrás do caixão, entras no cemitério, ofereces-lhe uns segundos de silêncio. esse homem morreu e agora já nada pode. tu ainda podes o último gesto de reconciliação. prestar-lhe respeito. e quando sais do cemitério, trazes sobre ti o peso todo da mágoa criada nos últimos anos. agora és tu quem leva em si o peso. agora és tu quem ainda pode fazer alguma coisa para o desfazer.

mágoa

o tempo passa e percebes melhor. um dia o teu avô morreu e estás no velório, à porta da igreja, com o teu pai. nesse dia um homem chega junto de vocês os dois, dá os pêsames ao teu pai e não te dirige a palavra. não como se ignorasse que o teu pai tem um filho e esse filho estivesse ali (quantas outras pessoas que não te conheciam vieram, do mesmo modo, cumprimentar-te e dar-te os pêsames também a ti), mas ignorando-te propositadamente. o tempo passa e percebes melhor. não é maldade. é uma total ausência de formação. e a divergência não foi pessoal, nem política. para aquele homem, tu puseste em causa a sua ascensão. o tempo passa e percebes melhor. uma pessoa aprende sempre através das lições mais difíceis. ficar magoado não é copiar os erros de quem te magoou.