quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

virar a cara

um dia um homem passa por ti na rua e vira-te a cara, não falará mais contigo. nunca tiveram uma divergência pessoal, apenas um confronto de opiniões políticas. um dia um homem passa por ti na rua, tu dizes bom dia, sorris, ele vira-te a cara. não como se não te conhecesse, reconhecendo-te e virando ostensivamente a cara, para que percebas, que agora ele não te falará mais. um dia isso acontece, talvez seja a primeira vez que percebas que a idade adulta não traz sempre maturidade. algumas vezes, também traz maldade.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

imitação

eu vou continuar o falso lento do costume, o falso distraído, o falso não-tou-nem-aí. vou continuar o mesmo tipo que pisca o olho, que sorri, que não pára de inventar. vou continuar o mesmo tipo que rima o impossível e desatina o mais provável. vou continuar a ser o abraço quente. vou continuar a ser a melhor imitação de mim mesmo. para sempre.

peça

tu vais continuar a ser a mesma moça de nariz empinado e vais deixar que os cabelos brancos te tornem ainda mais brilhante. vais ter frio nas noites de inverno e querer ficar parada na varanda, ao sol, quando chegar o calor. vais continuar respondona e feliz, assertiva e gulosa, decidida e doce. haverá, como sempre houve, pessoas que te conhecerão um pedacinho. e depois existirei eu, o tipo que sabe do teu lado diurno e nocturno. a peça que completa.

vinte anos

olha, daqui a vinte anos eu vou estar contigo, debaixo dos lençóis, muito quentinhos os dois, abraçados, e tu vais rir-te como uma catraia pequena e dizer outra vez, só tu para me fazeres rir assim, e eu vou apertar-te nos meus braços e sussurrar-te ao ouvido, sempre foi assim, amor, sempre foi assim.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

entre

entre a mão e a parede, a faca que corta as cabeças. a mulher que chora. o homem que ignora os meios de conhecer o mundo. a garrafa de álcool. o representante do povo. entre a mão e a parede, o lixo que escorre das bocas. o arranjo fotográfico. a sessão de cumprimentos. as crónicas anunciadas. entre a mão e a parede, trezentos quilómetros de estrada esburacada, um rádio mal sintonizado. uma viagem. um desejo. um apagão.

mão

a mão pousou sobre uma página velha que estava esquecida nas prateleiras. pousou ali e reacendeu-se. o papel fez-se corpo e o corpo agressor - já tentaste focar os olhos numa chama? - dedicando-me todas as suas forças. a mão pousou sobre algo que agora já não reconhece, e queima e prende e não deixa que a retire. a mão pousou. fim da história.

parede

a parede branca quase cega, fecho os olhos devagar. não há palavras que possam ainda ser acrescentadas a este eco. não há maneira de fazer sentir as coisas de uma forma diferente. a parede branca quase cega, repito isto, ainda não o interiorizei. os pés cansados de tanta escada, tanta escarpa. aquele momento em que todos falam, apenas por não haver já mais o que dizer.